Escrever para Angola não é apenas colocar palavras num papel ou num ecrã. É, acima de tudo, um exercício de escavação. É tentar soprar a poeira do tempo que se acumula sobre as nossas histórias, os nossos traumas e as nossas esperanças, para encontrar o que ainda brilha lá no fundo.
Muitas vezes perguntam-me: "Vale a pena? Com tanta gente a deixar de ler, com a pressa do dia a dia, por que insistir em textos que falam da nossa terra?" A resposta é simples, mas profunda: escrevo porque a memória é a única coisa que nos impede de sermos levados pelo vento.
A Poeira que Tenta Ocultar Quem Somos
O tempo em Angola tem um ritmo próprio. Ele corre rápido nas cidades que crescem, mas parece parado na poeira das estradas de terra batida. Essa "poeira" é uma metáfora para o esquecimento. Se não escrevermos a nossa própria versão do que vivemos, outros escreverão por nós.
Escrever para Angola é lutar contra esse silêncio. É falar do musseque, mas também do asfalto; é falar da tchianda, do semba e da força da mulher que carrega o país nas costas enquanto vende no mercado. Quando escrevo, o meu objetivo é ser um mensageiro que atravessa essa cortina de poeira para dizer: "Nós existimos, e a nossa história tem valor."
O Mensageiro: Entre a Herança e o Futuro
Ser um mensageiro neste contexto significa ser uma ponte. Escrevo para os mais velhos, que guardam a sabedoria que a modernidade muitas vezes ignora, e escrevo para a juventude, que tem fome de mudança, mas às vezes sente-se perdida num mundo globalizado e outros perdidos nas paragens a lotar (prestar serviços de intermediário entre o taxista e passageiro).
Escrever para Angola é usar palavras fáceis para explicar sentimentos complexos. É falar de:
- Identidade: O que nos faz angolanos além do bilhete de identidade?
- Resiliência: Como é que conseguimos sorrir e dançar mesmo quando a vida aperta
- Esperança: O que estamos a construir hoje para que os nossos filhos não tenham de lutar as mesmas batalhas?
Por que Continuar?
Escrevo porque acredito que a palavra é uma semente. Talvez hoje o texto seja apenas uma leitura rápida no telefone, tablet ou mesmo no seu pc, mas se uma frase ficar gravada no peito de um jovem angolano, a missão está cumprida. A poeira do tempo pode até cobrir as ruas, mas não pode apagar o que está escrito na alma de um povo que decide não esquecer quem é.
Escrevo para Angola porque amo esta terra. E quem ama, cuida através da palavra. É o meu contributo para que a nossa essência nunca se perca entre os ponteiros do relógio.
Escrevo para vocês com amor e carinho, do vosso Mensageiro do Tempo:
Luciano João Ferraz Romão.

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