Caminhar pelas ruas de Luanda hoje é de observar um fenômeno curioso. Em cada esquina, ruas e travessas, os olhos estão baixos, colados ao brilho das telas. Estamos todos conectados, mas a pergunta que o "Mensageiro do Tempo" faz hoje é: com quem estamos aprendendo a viver?
Na nossa cultura, a figura do Mais Velho nunca foi apenas uma questão de cronologia ou de cabelos brancos. Ser Mais Velho é um grau de jurisdição moral. É aquela biblioteca viva que não precisa de Wi-Fi para funcionar, mas que parece estar a ser silenciada pelas notificações do WhatsApp e pelas dancinhas do TikTok.
A Biblioteca que se apaga em silêncio:
Antigamente, quando havia uma dúvida sobre a vida, sobre um conflito familiar ou sobre como enfrentar uma crise, o caminho era o quintal do Mais Velho. Ali, entre um chá ou um olhar mais demorado, a resposta vinha carregada de contexto, de ancestralidade e, acima de tudo, de tempo.
Hoje, vivemos a ditadura do imediatismo. Se temos uma dúvida, perguntamos ao motor de busca. Se queremos um conselho, seguimos um "influencer" que, muitas vezes, tem metade da nossa vivência, mas o dobro dos nossos seguidores. O problema é que o algoritmo nos dá a informação, mas só o Mais Velho nos dá a sabedoria. A informação é rápida; a sabedoria é lenta.
O choque entre o "Scroll" e o Conselho:
A era digital nos trouxe uma ilusão de autossuficiência. O jovem de hoje sente que domina o mundo porque domina as ferramentas. Ele sabe configurar o telemóvel, sabe investir em cripto, sabe usar a IA. Mas, quando a "MAKA" aperta de verdade, quando o luto chega, quando o caráter é testado ou quando a solidão da cidade grande bate à porta, o ecrã fica mudo e surdo.
O Mais Velho é aquele que já viu as chuvas passarem e as secas terminarem. Ele conhece os ciclos. Enquanto a juventude se desespera com a "MAKA" do momento, o Mais Velho olha com aquela calma de quem sabe que quase tudo na vida é passageiro. Há uma profundidade no olhar de quem viveu o tempo da banga e o tempo da carência que nenhum curso online consegue replicar.
TERMO MAKA em Angola significa: problema, confusão, complicação, questão difícil ou situação chata..
É um termo informal, muito usado no dia a dia, atravessa classes sociais e aparece em várias línguas nacionais (especialmente do grupo bantu), mas entrou forte no português angolano urbano.
Não é sobre tecnologia, é sobre humanidade:
Não se trata de ser contra a tecnologia. O progresso é inevitável e necessário. O ponto aqui é a perda do filtro. Quando paramos de ouvir os nossos Mais Velhos, perdemos o fio da meada da nossa própria história. Uma sociedade que só olha para o futuro e despreza o passado é como uma árvore que quer dar frutos, mas corta as próprias raízes para ser mais leve.
Precisamos encontrar o equilíbrio. A agilidade do jovem é o motor, mas a prudência do Mais Velho é o travão e o volante. Sem isso, a nossa sociedade em Luanda corre o risco de se tornar um amontoado de indivíduos conectados por cabos, mas desconectados de valores fundamentais como o respeito, a paciência e a honra.
Reflexão final para o leitor:
Da próxima vez que estiveres com um Mais Velho, faz um exercício: pousa o telemóvel por dez minutos. Pergunta sobre como era Luanda ou Angola de outro tempo, ou como ele resolveu os problemas que hoje te tiram o sono. Vais perceber que, por trás daquelas rugas e do sotaque carregado de vivência, existe um código sagrado que o Google ainda não conseguiu indexar.
O tempo não perdoa quem o ignora. E o Mensageiro do Tempo avisa: a bateria do telemóvel vicia e descarrega, mas a palavra de um Mais Velho, quando bem guardada, dura uma vida inteira.

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